O corpo a abarrotar de demência

Este homem tem o corpo a abarrotar de demência;
escrevem os olhos e salta à vista o sangue
e a sede que se lhe colam às mãos
e assaltam os pensamentos.
Passou o dia a mergulhar nesses impronunciáveis,
agora vai à deriva das sombras: é um comboio de loucura,
ansioso por se afundar no primeiro túnel
que a essas águas se fizer.
E, quando tudo for treva, intermitente,
à tona surgirá um sorriso: um esboço dum grito.

Mesmo que o seja, não será seu.

Corte

Hoje fiz um corte. Não pela cidade
ou no pão, mas na nitidez do que dói.
Às vezes corto pela memória e sigo ao espírito
do que murmura o sangue e me não é líquido;
outras, como esta, vou por onde não há caminho.
Tacteio as feridas
que certas vozes me deixam impressas na pele,
e, donde surge a imagem dos que não têm rosto,
aflora a mentira com que um grito chora
e se não pode pronunciar ou atear no esquecimento
do que rasga o desespero.

O melhor utensílio

É, sem dúvida, a memória o melhor utensílio para o efeito. Muitos outros há, todavia invariavelmente esbarram na rigidez do percurso. Somente esta, por ser flexível, consegue cavar tão profundo. Basta que a hasteie, e, convulsa, ao sabor do vento, faz-me provar a melancolia, rasgando os caminhos que se fixam no coração.

Poderão julgar que se, porventura, insistir nesse labor, correrei o risco que este desabe. Mas não agora: há muito que está suspenso; não na corda das recordações ou da brandura, pois, por mais que o revolva, não encontro nada de precioso senão o sangue preciso a que se me prendem estes reflexos. A memória é o espelho onde nada o coração.

Episódio muito breve

Vou contar um episódio muito breve. Havia um homem que por murmurar uma palavra proibida, depois de severamente criticado, acabou multado. Havia um outro, que, perante uma multidão, ao acenar com algumas palavras comuns na forma de adjectivo de género, foi, por diversas situações, congratulado. Curiosamente um deles está preso; o outro enlouqueceu. Confesso que se, eventualmente, me cruzasse com qualquer um deles, não saberia dizer qual.
O primeiro estava entre a multidão.

O arquitecto

Este homem edificou a sua casa em torno da mentira. Todavia, mal terminada - assim cria - a obra, e ainda com um sorriso de contemplação estampado no rosto, notou nas paredes as primeiras fendas. No imediato, deu ordens para, sem olhar a despesas, ser reparada aquela pequena adversidade; e voltou a sorrir. Mas sempre que o fazia, estas alastravam. Não demorou muito mais e começaram a ceder os primeiros tijolos. Nem quero imaginar o que aconteceria acaso soltasse uma gargalhada, porém tenho cá para mim que deverá ser esse o motivo por que agora se prende ao choro. Coitado, vai acabar soterrado com cujo peso, e não me surpreenderá sequer que, num último suspiro, alicerce o delito no alvenel.